quinta-feira, 27 de junho de 2013

Condenados de alta periculosidade entram e saem de presídio pelo muro

Silvio Milani

Foto: Rodrigo Rodrigues/GES

Novo Hamburgo  - Condenados de alta periculosidade entram e saem do presídio pelo muro sem vigilância. Dia e noite. Motoristas de carros emotos param rapidamente na rua para arremessar pacotes ao pátio. Drogas e celulares circulam à vontade nas galerias. Prostitutas são puxadas para dentro com cordas. O Instituto Penal de Novo Hamburgo está fora de controle. Os presos tomaram conta. Conforme detentos que não integram facções, as duas principais organizações criminosas do sistema carcerário gaúcho – Os Manos e Os Bala na Cara – vêm aproveitando a fragilidade da segurança interna para forçar regalias e até determinar a distribuição dos apenados nas galerias. São grupos rivais, que se matam nas ruas, mas não se enfrentam no presídio. “Tá tudo dominado.” O fato de as penas estarem sendo cumpridas de forma indevida é de importância secundária diante das severas consequências à sociedade.
Investigações policiais apontam que apenados saem em escala cada vez maior para matar e roubar. Retornam pelo mesmo muro com o álibi de que estavam na última conferência. É como se não tivessem fugido.
Incrustado em área residencial do bairro Ouro Branco, o presídio é para detentos dos regimes aberto e semiaberto. Dos 287 apenados, 153 têm direito ao serviço externo. Muitos deles, ao invés de ir para o trabalho, vão praticar crimes e usam o álibi da carta de emprego. Costumam pular o muro à noite, quando teriam que dormir na cadeia.
Os 134 restantes ainda não têm autorização para trabalhar fora.A esses, em qualquer hora do dia, a única saída é o muro.
Surpresa e medo
As cenas causam perplexidade a quem trafega pela movimentada área. “Estava passando de carro e dei de cara com um preso saltando para a rua. Não dá para acreditar que é tão fácil fugir do presídio”, declara um representante comercial de São Leopoldo. Os vizinhos não se surpreendem mais.
“Isso acontece a toda hora. Ainda olham de forma ameaçadora para nós, que fazemos de conta que não vimos nada”, relata um empresário. Os moradores da quadra querem protestar, mas têm medo de represália. Nenhum permitiu que sua propriedade fosse usada pela reportagem para registrar fugas. “Eles podem identificar que as fotos foram feitas daqui e vão querer se vingar da minha família”, ponderou uma advogada.
A equipe ficou na Rua Rio de Janeiro, em um carro discreto. Nas três horas que passou despercebida por presos vigilantes, em duas tardes, flagrou duas escapadas e o serviço de tele-entrega de dois automóveis. A campana foi encerrada quando o condutor de um Corsa Wagon vermelho que deixaria droga para detentos desconfiou da presença da reportagem e possivelmente avisou a cadeia. O único ponto possível para a captação de imagens estava descoberto.
Susepe nega poder paralelo
O delegado regional da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), Luciano Lindemann, admite o crescimento das facções no presídio hamburguense, mas nega que tenham assumido o comando.
“Esses presos ligados a facções vieram por determinação judicial, inclusive os oriundos de Viamão e Charqueadas, de um ano para cá. Entretanto, não recebemos qualquer solicitação de intervenção pelo fato de que os agentes não estariam conseguindo cumprir com suas funções.”
A entrada e saída de pessoas e objetos pelo muro, segundo ele, deve-se a problemas estruturais e na legislação. “Estão previstas reformas nas instalações e contratação de pessoal, mas o muro é um ponto complicado, pois a vigilância ali não é atribuição dos agentes nem da Brigada, que pela lei só fica nas guaritas de casas do regime fechado.”
Lindemann frisa que a fiscalização do serviço externo é por amostragem. “Além da carência de pessoal, não podemos ir todo dia ao trabalho do preso porque isso vai causar constrangimento e daqui a pouco o empregador pode querer demitir. Da parte da Susepe, a saída do apenado é
imediatamente suspensa quando não o encontramos no trabalho, mas o Judiciário costuma autorizar o retorno ao emprego.”



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