segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Ala especial em presídio da PB ajuda travestis a não sofrer preconceito

Os homens não queriam dormir ao lado de travesti ou gay, revela Danyelly. Grupo conquistou o direito de usar nome de mulher e não raspar a cabeça.




A superlotação é uma condição comum que a Penitenciária Modelo Desembargador Flósculo da Nóbrega compartilha com muitas das unidades prisionais do Brasil . No entanto, o presídio do Róger – nome pelo qual é conhecido e que faz referência ao bairro de João Pessoa , na Paraíba, onde está situado – guarda uma singularidade: uma ala especial para os gays. 

A ideia de criar o espaço foi sugerida pelo movimento gay e posta em prática pelo secretário de Assuntos Penitenciários da Paraíba, Wallber Virgolino Silva. “A gente sabe que a discriminação fora do cárcere é grande. Dentro, esse preconceito se acentua. Visando humanizar o sistema e também preservar a integridade física e psicológica da comunidade LGBT, criamos essa ala nos principais presídios da Paraíba”, conta o delegado de 38 anos. Ele revela que, quando entrou no sistema prisional, soube do caso de um travesti que tinha sido violentado por 20 homens em uma só noite.
 

Além do lugar reservado, os sete prisioneiros conseguiram outras duas conquistas: são chamados pelo nome que escolheram e não são obrigados a raspar o cabelo. Outra sorte é contar com um fogão elétrico, usado para fazer os temperos e incrementar a comida que vem da cozinha coletiva.
 
 
“Na ala gay, a gente tem mais privilégio. Na ala masculina, muitos rapazes têm preconceito, querem exigir várias coisas. Por eu ser travesti, era obrigada a cozinhar, lavar pratos”, relembra Luana Lucrécia. Ela conta que, apesar de se sentir cobiçada no meio de tantos homens, não sofreu violência sexual na prisão.
Ela chegou ao Róger após um suposto flagrante. “Estava querendo ir para o interior e fui conseguir cinco reais com uma senhorita. Ela, amedrontada, disse que eu estava assaltando e chamou a polícia”, diz. A pena imposta foi de quatro anos em regime aberto, mas ela precisa de um advogado para conseguir a soltura. 

A cabeleireira Danyelly,  presa em novembro por envolvimento com o tráfico de drogas, revela que sofria preconceito antes da criação da ala. “Eles não queriam ficar sentados ao lado da gente, tomar água no mesmo copo ou dormir do lado de travesti ou homossexual. Entristecia. Agora, a gente está mais tranquilo”, avalia.
 

No presídio feminino Julia Maranhão, uma ala exclusiva para homossexuais é impensável. Os casais gays vivem em harmonia com as detentas heterossexuais. “A gente aceita do jeito que cada um tem a sua opção. Não há nenhum conflito, não há violência”, aponta Marta.
 

O jornalista Fernando Gabeira , que visitou as duas penitenciárias, acredita que a história de Luana Lucrécia revela uma diferença central no Brasil: os poderosos demoram a ser presos e os mais fracos demoram a ser soltos. Segundo ele, a Paraíba tem tratado com flexibilidade as diferenças, mas a superlotação é uma grande ameaça. O presídio do Róger, por exemplo, tem o dobro dos presos que pode abrigar.

 logo

 FONTE: G1

Nenhum comentário:

Postar um comentário