sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O discreto charme das carcereiras na cadeia



RIO - Depois de meses de estudo e de algumas tentativas frustradas, a advogada Eliane Oliveira finalmente conseguiu passar em um concurso público. Inspetora de segurança, ela assumiu um posto na cadeia feminina Joaquim Ferreira de Souza, que fica dentro do maior complexo penitenciário do país, em Bangu. Longe do estereótipo que a ficção criou para uma carcereira, Eliane, de 35 anos, tem o corpo esculpido graças a treinos pesados de musculação e a uma lipoaspiração recente. O cabelo, liso e brilhoso como o de um comercial de xampu, chega à altura da cintura, e as unhas compridas são no estilo “francesinha”.
— As presas reparam em tudo e sempre elogiam se estou com um esmalte novo. Quando chego aqui queimada de sol, sempre tem uma que fala: “A senhora foi à praia? Que maravilha. Isso tem cheiro de liberdade” — conta a advogada, dona de olhos verdes realçados por cílios carregados com rímel e de próteses de silicone de 325ml nos seios.
Eliane representa uma nova geração de carcereiras, com nível superior e cada vez mais jovem. De acordo com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) do Rio, em 2007, a idade das agentes mais jovens era de 32 anos. Hoje, é de 21. No último concurso, realizado em março de 2012, a disputa foi acirradíssima. Foram 60 mil inscritos para 400 vagas, e, destas, 138 foram preenchidas por mulheres, a maioria atraída pelo salário inicial de R$ 3.983,67. Além da prova escrita, que inclui conhecimentos em legislação e Direito Penal, as candidatas também passaram por testes físicos com provas de corrida e salto em distância.
— A nova leva de agentes é ambiciosa, quer investir na carreira e faz questão de continuar estudando. As funcionárias antigas tiveram até que se renovar. E sobre vaidade, acho ótimo. Eu mesma estou sempre de salto alto e perfumada. O problema é que as novelas costumam acabar com a gente — brinca a diretora da cadeia e ex-inspetora penitenciária Juraciara Gonçalves, que tem três diplomas de três faculdades diferentes.
Porta de entrada das presas femininas no sistema penitenciário, a cadeia Joaquim Ferreira de Souza tem cerca de 400 detentas, com idades entre 18 e 60 anos. Lá, as 60 agentes, que não suportam ser chamadas de carcereiras (preferem “guardas”), têm menos de quatro anos de admissão e trabalham em plantão de 24 horas seguidas para folgar três dias. Todas são chamadas de “senhoras” pelas detentas, que são orientadas a andar pelos corredores com as mãos para trás do corpo e de cabeça baixa.

Filha de uma advogada e de um funcionário público aposentado, Adriana Lacerda resolveu começar estudar para concursos assim que perdeu o emprego. Aos 33 anos, mãe de um menino de 10 anos e moradora de Copacabana, ela nunca imaginou trabalhar em um presídio.
— Não foi nada fácil, porque os meus pais não me apoiaram e diziam que essa era uma profissão muito perigosa. Nos dois primeiros meses, tinha pesadelos constantes com as presas — lembra Adriana, que está no último ano da faculdade de Gestão de Recursos Humanos e nos dias de folga gosta de ir ao cinema e à praia com o namorado. — Hoje, menos de um ano depois, posso dizer que essa realidade já faz parte da minha vida. Acho tudo normal.
Iana Barcelos, de 29 anos, é formada em Direito e tem pós-graduação em Processo Penal, mas não gosta de comentar com os amigos detalhes da função que exerce.
— Se conto, dificilmente as pessoas vão acreditar. Ninguém acha que tenho cara de quem trabalha como agente penitenciária — diz Iana, que é casada há oito meses, vai para Bangu com seu próprio carro e é responsável por uma das galerias da penitenciária. — A gente nunca sabe como vai ser o nosso dia, mas há momentos de muito estresse. Já fui ameaçada por uma interna logo depois que chamei a atenção dela por uma indisciplina. Foi complicado, até hoje não gosto nem de lembrar aquele dia.


Quando não está de plantão, a psicóloga Tatiane Passalini, de 30 anos, pode ser facilmente encontrada na academia que fica perto de sua casa, em Jacarepaguá. Faz spinning e musculação e corre na esteira para manter o manequim 38. A calça e a blusa largas do uniforme escondem o corpo turbinado com próteses de silicone. As unhas estão sempre feitas e, na maioria das vezes, combinam com a cor do batom que usa.
— Minha mãe fica muito preocupada quando saio para trabalhar, e sempre que vejo o celular tem dez ligações perdidas dela. Mas esta não pode ser considerada uma profissão inferior às outras. Já salvei uma mulher que estava tentando se enforcar com uma calça jeans dentro da cela, sabia? — pergunta Tatiane, sem alterar o tom de voz.
Chefe de turno, Ana Paula Pimenta, de 30 anos, também já passou por situações semelhantes, e sua vida mudou radicalmente desde que ela trocou a coordenação de uma escola de educação infantil pelo trabalho no presídio.
— Tenho uma rotina completamente diferente da que tinha antes, mas continuo com metas a cumprir e resultados para apresentar aos meus chefes. Hoje, não revelo a minha profissão para muitas pessoas por uma questão de segurança, e, mesmo que você não acredite, eu tenho, sim, um orgulho enorme do que faço — afirma Ana Paula, jogando o cabelo de um lado para o outro.
Reportagem publicada na revista digital O GLOBO A MAIS


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Um comentário:

  1. Q a dona Eliane e linda eu tenho q congostar mas ela trata as presas como bixo ! Eu sei oq estou falando pois fiquei la por 2 anos ! E nem todas as SAPS ve q temos novas chances elas acham q nunca iremos ser um nada nem nimguem !
    Eu tiro algumas dessa lista pois sempre me deram altos conselhos e eu segui esses concelhos e hoje minha vida e outra renovada !
    Mas nem tudo e ouro intrevista as guardas e muito fácil quero ver uma ex.Presa !
    Sininho aqui!

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