domingo, 26 de janeiro de 2014

Filme em cartaz em Tiradentes mostra a cadeia como ela é


Rodado em Curitiba, longa de Aly Muritiba expõe mazelas burocráticas que emperram o sistema carcerário brasileiro. Na contramão do preconceito, ele exibe a rotina dos agentes penitenciários

Carolina Braga -  EM Cultura

'A gente' foi filmado dentro do Centro de Detenção de São José dos Pinhais, na Grande Curitiba (Grafo Audiovisual/divulgação)
'A gente' foi filmado dentro do Centro de Detenção de São José dos Pinhais, na Grande Curitiba
 
Foram cinco anos de serviço como agente penitenciário na Grande Curitiba (PR). Diante daquela forte realidade, o então estudante de cinema Aly Muritiba viu surgir a ideia de um filme. Assim nasceu A gente, interessante híbrido de documentário e ficção que será exibido hoje na Mostra de Cinema de Tiradentes.

“Documentário é construção discursiva, assim como a ficção. É uma verdade”, comenta o diretor. Neste momento, o discurso construído por Muritiba dentro do Centro de Detenção de São José dos Pinhais se torna ainda mais relevante. Enquanto o Complexo de Pedrinhas, no Maranhão, escancara o colapso do sistema carcerário brasileiro, A gente oferece um olhar lúcido sobre a falência administrativa do sistema penitenciário a partir do exemplo do Paraná, tido como referência no país.

Além disso, o modo como Muritiba nos apresenta aquela realidade altera a imagem preconcebida sobre o seu antigo ofício. Geralmente, agentes penitenciários são vistos como brucutus truculentos e pouco intelectualizados. “Minha premissa é de que o sistema penitenciário não funciona, apesar de lá dentro existirem profissionais que acreditam no que fazem. O Estado não oferece capacitação técnica, gerencial e formativa a eles”, garante Aly.

Com a câmera na mão, o diretor – que pediu reintegração ao cargo para fazer o filme – registrou a rotina de sua equipe durante oito meses. Graças à intimidade com os colegas, nada parece forçado. Com o tempo, a câmera deixou de ser elemento estranho, integrando-se ao dia a dia da cadeia, mas sem ultrapassar o limite do respeito ao ser humano.

Ao longo de 89 minutos, Aly mostra a prisão como ela é. Apresenta detalhes das revistas para encontros íntimos, bem como o ritual em que agentes penitenciários se algemam no pátio interno. “É uma cadeia específica, mas pode ser o microcosmo, visto por dentro, de muitas outras neste país”, afirma.

AGENTE

A narrativa se desenrola a partir de um personagem, o agente Jefferson Walkiu, no momento em que ele assume a inspetoria do presídio. Fora dali, esse pastor evangélico se dedica rotineiramente à sua igreja. “Era importante mostrar as duas facetas daquele mesmo homem no jogo. Ele crê muito no trabalho e na igreja”, explica o cineasta.

Embora a violência marque o ambiente, em nenhum momento ela é filmada em A gente – seja retratada ou sugerida. O foco está na burocracia que cerca o sistema e na ausência de políticas públicas para o setor. Aly mostra embates burocráticos que Walkiu enfrenta, a relação ética que mantém com os presos e os momentos em que ele precisa ser autoritário.

Mesmo que algumas cenas contem com a ajuda de atores, A gente não se distancia da realidade. “Não há fronteira entre documentário e ficção. Se ela existe, não sei onde está”, reforça Aly Muritiba.

JUNHO NA TELA 


Além do longa A gente, Aly Muritiba leva a Tiradentes o curta-metragem Brasil, que será exibido quarta-feira, no Cine Tenda. O filme conta a história de dois irmãos enquanto se preparam para participar das manifestações de junho do ano passado. Um deles é policial do Batalhão de Choque e o outro prepara cartazes e coquetel molotov para o protesto.

MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES
Até 1º de fevereiro. Entrada franca. Informações: www.mostratiradentes.com.br
 

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