terça-feira, 10 de março de 2015

Do Ceresp de Betim, preso diz por telefone à Itatiaia: 'Vamos quebrar as celas'


Detentos do Centro de Remanejamento Prisional (Ceresp) de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, fazem uma greve de fome desde a manhã desta terça-feira. Na segunda (9), eles queimaram colchões. Os protestos são contra uma série de direitos que, segundo os presos, são desrespeitados dentro da unidade.
Um detento que pediu para ser chamado pelo nome fictício de Márcio ligou para aItatiaia e relatou a situação.
Itatiaia - Vocês estão fazendo uma rebelião?
Márcio - “Ontem à noite queimamos tudo que tinha que queimar. Agora, de manhã, não tem mais nada para queimar. Estamos em greve de fome. Nós demos uma pausa agora. Chamamos o diretor e ele não quer vir. Nosso próximo passo será quebrar as celas e pular para fora das galerias. E é por que isso que estamos ligando para vocês, porque já ligamos para o Direitos Humanos. A pessoa que atendeu lá ficou de comentar com o secretário de Direitos Humanos para retornar para nós, no nosso telefone. Só que até agora ele não retornou.”
Itatiaia – Qual a razão do motim?
Márcio - “Aqui, no Ceresp de Betim, não está sendo respeitado o direito mínimo do preso. Vamos começar pelo básico: a água aqui eles estão ligando três minutos de manhã e dez minutos à noite, quando liga; a capacidade da cela é de seis presos, tem 21 presos. E essa água que eles ligam, é para a gente escovar os dentes, tomar banho, fazer as necessidades fisiológicas e lavar roupa. Aliás, diga-se de passagem, são duas peças de roupas que temos: uma bermuda e uma camisa. Quando dá para lavar roupa, a gente fica pelado na cela. Quando eles cismam com a cela, eles vêm e desligam a água. Essa cela fica até 33 horas sem água porque desliga no plantão do dia, quando estão indo embora, e só voltam a ligar no outro dia à tarde, para receber a água da noite. As nossas visitas dormem na porta da cadeia. Além das horas infinitas que ficam do lado de fora, na fila, quando entram e chegam no pátio, esperam até duas horas para tirar de nós de dentro da cela para levar para o pátio para nós gozarmos o direito de ter a visita. Tem também a questão da transferência. Isso aqui é Ceresp. É Centro de Remanejamento Prisional. Aqui, já há meses, não tem transferência. Nós somos 21 presos numa cela que é feita para seis. Tem o caso das torturas físicas e psicológicas que passamos aqui. A gente leva choque, é spray de pimenta todo dia, batem na gente sem motivo algum, põem a gente no pátio, pelado, sentado lá horas e horas com a cabeça no meio do joelho e com a mão na cabeça.”
Itatiaia - Você está com este celular na prisão?
Márcio - “Nós estamos com um celular aqui dentro sim. Sabe por quê? Porque aqui eles demoram de 30 dias a dois meses para entregar uma carta dos nossos familiares que já chegou na cadeia para nós. Os nossos familiares postam a carta no correio. É dois, três dias para chegar na cadeia. Demora de um a dois meses para eles entregarem, quando entregam. A lei nos garante a comunicação com nossos familiares. Lei 7.210/84. Eles nos privam. Por que nós vamos respeitar também as leis impostas a nós? Ou seja, os nossos direitos são escondidos debaixo de sete chaves. Agora, a nossa obrigação é imposta a nós na base da força. Não, o mesmo pau que dá em Chico, dá em Francisco.”
Itatiaia - Tem algum agente penitenciário vendo você conversar pelo telefone?
Márcio - “Obviamente que não, porque implica em falta disciplinar grave.”
Itatiaia – Há quanto tempo você está preso?
Márcio - “Estou preso há seis meses, no artigo 157 [assalto]. Esse crime eu cometi em 1997. Desde 2000 que eu não pratico nenhum crime. Fui regredido para o regime semiaberto – estava no aberto até seis meses atrás – porque violei o perímetro da tornozeleira. Enquanto eu vejo gente aí cortando a tornozeleira uma, duas, até três vezes voltando para a rua. Tem 16 anos que não cometo nenhum crime e estou preso aqui nesse inferno, onde não se respeita o meu direito. Estou aqui, condenado no regime semiaberto, a uma cadeia de 20 anos, dois meses e 20 dias. Estou pagando exatamente 16 anos e três meses dela. Estou aqui preso nela porque disseram que eu cometi uma falta disciplinar grave.”
Itatiaia questionou a presença do celular na cadeia. Em resposta, a Secretaria de Estado de Segurança (Seds/ MG) afirmou que as “revistas em celas são ações rotineiras no sistema prisional, e visam coibir a entrada de objetos e materiais ilícitos no interior da unidades.”
Conforme a nota da Seds, a falta de água na unidade está relacionada com a escassez enfrentada também pelos bairros do entorno, devido à deficiência no abastecimento, em virtude do baixo nível dos reservatórios. De acordo com a secretaria, “a água voltou a ficar disponível para os detentos e a situação no Ceresp Betim é de normalidade.”
Confira a reportagem de Natália Quaresma:

OUÇA O(S) AUDIO(S) DESTA NOTÍCIA:

?De dentro do Ceresp Betim, preso diz por telefone à Itatiaia: 'Vamos quebrar as celas'

2 comentários:

  1. Cadeia não é SPA não... Quem está preso é porque é criminoso; fez covardia aqui fora e agora vem falar em direitos? Tem que pagar mesmo para apreender a respeitar o próximo! É só respeitar as normas e condutas impostas pela sociedade que não volta para a cadeia, mais não... quando saem voltam para o crime, ou seja, gostam do tratamento da cadeia! Porrada nos vagabundos!!!

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  2. Quebra mesmo estado trata preso e os servidores mal e ainda tem diretor que vivi enfiado no gabinete do subnada

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