terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O PCC EM MINAS GERAIS

Facção incita prisão de líderes

Integrantes do PCC cometeriam crimes para entrar em presídios de MG e atrair novos membros

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Uberaba. Talismã, um dos líderes do PCC, chegou a ficar preso na Penitenciária Professor Aluizio Ignácio de Oliveira
PUBLICADO EM 17/01/17 - 03h00
A principal estratégia utilizada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para se tornar hegemônico no Triângulo Mineiro e no Alto Paranaíba é utilizar a prisão de membros da alta cúpula da facção para influenciar outros detentos a fazer parte do grupo. Os “batismos”, como são chamadas as novas adesões, têm ocorrido em praticamente todos os presídios da região, conforme os relatos de agentes penitenciários. Há denúncias, inclusive, de que líderes importantes do PCC estariam “forçando” suas prisões em Minas – ao cometerem crimes de menor potencial ofensivo – para entrar no sistema prisional do Estado.

A medida seria uma forma de multiplicar por conta própria a influência da facção fora de São Paulo, uma consequência também da política de transferência de líderes adotada pelo governo paulista. De acordo com reportagem publicada nessa segunda-feira (16) pela “Folha de S.Paulo”, a nacionalização do PCC foi facilitada pela realocação de líderes do grupo em unidades prisionais de outros Estados, que, assim, puderam disseminar a cartilha da organização criminosa. O número 1 do grupo, Marcos Camacho, o Marcola, por exemplo, passou por Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal e Rio Grande do Sul.

Em agosto do ano passado, Carlos Eduardo Romualdo, 33, foi preso em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Conhecido como Talismã, ele é apontado como o segundo na lista de hierarquia do PCC e seria responsável por cuidar da logística do tráfico de armas da organização criminosa. Porém, o que chamou atenção foi o motivo de sua prisão na cidade: ele roubou celulares de pedestres do bairro Recreio dos Bandeirantes.

Talismã, conforme divulgado pela Polícia Civil na época, já tinha mandados de prisão em aberto por assalto e formação de quadrilha e era alvo de investigação por intermediar a execução de policiais civis e militares em São Paulo. O fato de um membro da alta cúpula do PCC estar roubando celulares em uma rua de Uberaba causou estranheza nos agentes da Penitenciária Professor Aluizio Ignácio de Oliveira, para onde foi conduzido. A suspeita de uma prisão “forçada” se fortaleceu após a postura adotada pelo detento na unidade.

“Ele chegou e já foi imediatamente para o pavilhão exclusivo. Passou a juntar os presos durante o banho de sol todos os dias. Era tratado de forma diferenciada pelos demais, como um chefe mesmo. E demonstravam tratar de orientações importantes da organização durante esses encontros diários. O banho de sol era como se fosse seu horário de trabalho no escritório de uma empresa”, explicou um agente penitenciário, que pediu anonimato por motivo de segurança.

De acordo com o servidor, houve um aumento expressivo no número de detentos que passaram pelo “batismo” para integrar o PCC, e um dos reflexos disso foi percebido no fato de que muitos dos detentos adotaram o mesmo corte de cabelo de Talismã, com as laterais raspadas. “Isso também é uma regalia. Na teoria, no sistema prisional, todos os internos deveriam ter o cabelo raspado”, afirmou outro agente penitenciário, que também pediu para ter o nome preservado.

Segundo a Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap-MG), Talismã permanece no sistema prisional mineiro. No entanto, a unidade em que ele se encontra recluso não foi informada pela pasta.

Entenda. A estratégia de atrair novos membros para a facção a partir do sistema prisional faz parte do histórico do PCC. A organização criminosa surgiu em 1993, após o massacre do Carandiru, em que 111 detentos foram assassinados pela Polícia Militar de São Paulo.

A proposta inicial e que se mantém ainda hoje é criar uma organização de proteção aos presos contra os abusos cometidos no sistema prisional. Hoje, em troca dessa proteção dentro de penitenciárias, bandidos contribuem para o grupo com uma porcentagem do que ganham em suas atividades criminosas.

15 mil novos seguidores foram atraídos no país pelo PCC em três anos.


SAIBA MAIS

Juiz de Fora. Uma briga entre detentos nessa segunda-feira (16) provocou uma confusão no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional de Juiz de Fora, na Zona da Mata. Segundo a Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap), o tumulto começou por volta das 9h30, durante o banho de sol. A Seap informou que os agentes penitenciários controlaram a situação. Sete detentos ficaram feridos e foram medicados. A pasta afirmou nessa segunda-feira (16) que a situação foi normalizada na unidade.

Ribeirão das Neves. Presos da Penitenciária Dutra Ladeira iniciaram uma greve de fome nessa segunda-feira (16). Segundo a Seap, a mobilização partiu de três pavilhões. A secretaria convidou o Ministério Público, a Defensoria Pública e a Ordem dos Advogados do Brasil para uma conversa com os detentos. Após a mediação, eles voltaram a se alimentar.
FOTO: ALEX DE JESUS
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Protesto. Familiares de detentos fizeram uma manifestação, ontem, em frente à Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Eles reclamam que os parentes estariam sendo maltratados no sistema prisional. Ao menos 15 pessoas participaram do ato.


SUL DE MINAS

Grupo articulou greve de fome para obter regalias

No Sul de Minas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) também tem-se organizado para conquistar o domínio de cadeias. A facção já tem grupos dominantes em Três Corações, São Lourenço e Itajubá. Em outubro de 2016, a organização articulou uma greve de fome entre os detentos da região para forçar a concessão de regalias. Porém, na penitenciária de Itajubá, dois presos ligados ao Comando Vermelho furaram o movimento e desmobilizaram a ação. Dias depois, uma rebelião estourou no presídio, e dois agentes penitenciários foram feitos reféns.

“Tudo foi divulgado. O que as pessoas não sabiam é que os membros do PCC queriam matar os dois presos do Comando Vermelho, a mesma facção rival que tem provocado a disputa nos presídios do Norte do país. Só que ambos já tinham sido retirados. Diante dessa situação, eles afirmaram que só soltariam os agentes se os dois membros do grupo rival fossem entregues”, contou o presidente do Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária de Minas Gerais (Sindasp-MG), Adeílton Rocha. A troca acabou não acontecendo.

Ele afirma que as facções só tomam conta das cadeias por causa da falta de investimentos. “Queremos presídios com infraestrutura e segurança para agentes e internos. Em um local com condições mínimas, com oferta de trabalho e estudo e agentes preparados, as facções fatalmente perderão espaço”.

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